
Sofrendo na pele as agruras da vida na infância, Dickens cresceu sensível aos problemas da sociedade inglesa, sobretudo sensível com a pobreza e opressão que essa sociedade aplicava aqueles que tinham tido o azar de nascer pobres, ao ostracismo que esses pobres estavam sujeitos, sendo vistos como lixo, como animais.
Escritor diligente , Dickens, que começou a trabalhar numa fábrica aos 12 anos, consegue por mérito próprio aprender estenografia, profissão essa que o leva a entrar no mundo do jornalismo, sendo aí que toma o gosto pela escrita.
Nunca esquecendo as suas raízes e as dificuldades da infância, inclusive sempre teve a preocupação de editar as suas obras em folhetins a preços muito baixos (algumas dessas edições foram pagas pelo seu próprio bolso), mas nunca esquecendo essas dificuldades de infância, Dickens empreende a escrita de uma série de romances marcadamente sociais, romances onde a crítica à hipocrisia da sociedade é constante e facilmente perceptível e onde, em todas as suas histórias, descreve o modo de vida difícil dessa gente pobre e as fracas condições de vida a que essas pessoas estavam sujeitas.
No entanto e mais do que essas descrições, Dickens sempre tomou como “objecto” principal as crianças, eram elas que mais tocavam o coração de Dickens, pois são elas que contém em si, a nobreza, humildade e a inocência.
E são quase sempre as crianças as heroínas dos seus livros. A pobreza, misérias, maus tratos, morte e infelicidade.
”Oliver Twist”, escrito em 1837, foi um dos primeiros livros de Dickens e narra a história de uma criança que nasce num orfanato e aí é criado até aos 10 anos de idade, sempre sujeito à fome e maus tratos.
Essa fase da vida de Oliver é descrito de uma forma nua e crua. Dickens pretende, e consegue, evidenciar as más condições dos orfanatos ingleses, sobretudo a forma sobre-humana como as crianças órfãs eram tratadas.
Quando Oliver tem 10 anos, é vendido a um cangalheiro que o leva para a sua oficina de modo a aprender essa mórbida profissão. No entanto e como o menino não tinha ninguém no mundo, os maus tratos continuam, agora, para além de levar porrada e de ser injuriado, é alimentado com a comida que os cães declinam.
Farto de tanto sofrimento, Oliver, que tem um coração bondoso e um carácter nobre, empreende uma fuga a pé até Londre, cidade onde conhece um outro menino da sua idade que o faz entrar no mundo do crime quando o apresenta a Fagin, o Judeu, homem espúrio que comanda um bando de crianças que roubam para ele.
Começa então aí um novo capítulo da vida de Oliver que o leva a conhecer o mundo do crime e, também, o lado bom do ser humano...
”Oliver Twist” é uma história belíssima sobre a capacidade do ser humano em suprimir as dificuldades da vida, no entanto é também uma história que demonstra as piores facetas do ser mesmo e o quão maléfico pode ser feito para prejudicar o próximo.
Por outro lado, e talvez porque esta foi uma obra escrita na fase inicial da sua carreira, a história, embora demonstre uma grande consistência e solidez, falha nos últimos capítulos no aspecto estrutural, ou seja, existem demasiadas coincidência que tiram alguma da coerência, tudo encaixa muito facilmente. Porém é necessário não esquecer que este livro foi escrito em 1837 e destinava-se a esse tal público oprimido, um público que certamente se revia na personagem de Oliver e que, certamente, lhe agradou imenso o fim e a forma como é construído.
Dickens foi um génio da literatura. Para além de escrever muito bem, tem uma forma de descrever paisagens e situações que roça a poesia e, mais importante, é exímio na forma como transmite sensações, pois e num mesmo parágrafo, é capaz de nos comover como, de seguida, nos fazer rir.
Um clássico riquíssimo que deve ser saboreado.
8 comentários:
Sempre tive muita vontade de ler o Oliver Twist mas até ao presente não se proporcionou... Espero colmatar essa falha o quanto antes!
Já espero comprar Oliver Twist há muito tempo... Assim como outras obras do autor, que me fascina imenso. Acredito que vale a pena, a ler vamos!
Viva Canochinha.
Oliver Twist é, justamente, um dos grandes clássicos da literatura e um livro que não só nos dá a conhecer o modo de vida dos pobres, e também ricos, da Inglaterra do séc. XIX, como também é um livro que nos fornece um estudo da psique humana e até onde é capaz de ir o ser humano quando confrontado com dificuldades.
Olá Pedro.
Pessoalmente Dickens é um dos autores que mais aprecio e aquele que mais me ensinou acerca do modo de vida do séc. XIX e das mentalidades.
Para além de me interessar o séx. XIX, acho que Dickens escrevia muitíssimo bem, pois consegue transmitir muitas sensações e é riquíssimo nas suas análises ao fundo do ser humano.
Também já li David Copperfield, sendo também um livro muito bom e que aconselho.
Em Copperfield também o objecto de análise são as crianças e a sociedade que maltrata aqueles que nasceram sem sorte. Mas é diferente deste Oliver Twist em vários aspectos.
Aliás, o interessante na obra de Dickens é que ele analisava em todas as suas obras vários factos, sendo que alguns são transversais nas suas obras, construindo um género de puzzle sobre o ser humano, quer no seu aspecto social, cultural e psicológico.
Dickens anda a rondar-me há algum tempo... Comprei o David Copperfield recentemente, mas é um livro muito pouco prático para andar na bolsa diariamente, portanto estou à espera de uma fase mais tranquila para o ler de fio a pavio.
Agora com o teu post do Oliver, também fiquei com vontade de o ler. A ver se com o tempo vou juntando/lendo a obra deste autor.
Sempre fiquei fascinado com Charles Dickens, mas ainda não consegui arranjar nenhuma das suas obras que queria! Em especial Oliver Twist e David Copperfield.
A ver se os arranjo, é uma falha imperdoável ainda não os ter lido.
Abraço
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