quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Noite em que o Verão Acabou (O) – João Tordo

 

Thriller…

Um género raramente explorado por escritores portugueses e que tem uma enorme escola nos países nórdicos.


Em todo o caso e como aprecio a escrita de João Tordo, tinha enorme expectativa nesta obra e, adianto que não saíram defraudadas, pese embora considere o livro excessivamente extenso face à história e ao desenvolvimento da mesma. Ou seja, o desenrolar da história, mesmo dividida em três momentos temporais, é extensa e algo desnecessária, caindo por diversas vezes em situações redutoras, por vezes até em círculos que vão dar sempre ao mesmo local.

Mas o interessante é que a narrativa é sempre excitante, numa velocidade estonteante, que se lê num ápice (li as suas 667 páginas em 5 dias), porque a escrita de Tordo tem enorme qualidade, ele consegue criar situações, mesmo redutoras, interessantes, criando uma ilusão sobre a veracidade da história, pois a partir de certa altura, que é mais intensa no fim, o autor deixa-nos na dúvida sobre se a história efectivamente sucedeu, se aquilo tudo não passa afinal de uma narrativa verídica, onde o autor troca apenas os nomes e os locais.

Porém, e não apenas pela desnecessária extensibilidade, o livro não é um thriler. O autor pode ter tido a intenção de escrever um thriller, mas fica um pouco longe disso. O trama em si é algo rebuscado e com pouco ou nenhum suspense.

A fase inicial deixa antever uma história rocambolesca, onde sucede um homicídio com contornos estranhos. Este homicídio liga a principal personagem que se encontra nos Estados Unidos a estudar e, devido a uma velha amizade, se vê envolvido nas investigações. Mas e à medida que a história se vai desenvolvendo, começamos a constatar que se trata mais de uma história de amor não correspondido do que um thriller.

É um excelente livro, com uma história boa e interessante, com laivos de thriller, mas que não é um daqueles thrillers intensos a que nos habituamos por outras paragens. É mais soft, digamos que é uma mescla de géneros, mas onde a escrita do autor brilha intensamente.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Mágico de Auschwitz (O) - José Rodrigues dos Santos

 


Agora que está para sair o 2º volume e, quero aqui expressar o meu desagrado em relação a isso, pois acho uma falta de consideração e chico-espertice isso de editar um romance em dois volumes a preços tão elevados. Algo que, neste autor não é virgem, pois já o fez num outro e, nesse caso, foi ao cúmulo de o ter feito em três volumes, algo que rejeitei, não tendo adquirido nenhum deles.

Mas, e no caso, só me apercebi disso depois de ter adquirido este primeiro volume.

A capa do livro é horrível.

Parece uma daquelas capas dos anos 60 do séc. XX das aventuras do Mandrake. Feia, pirosa e que, acho, afasta muito boa gente. Até porque o interior traz-nos um romance muito interessante, onde o estilo de JSR é aquele que nos tem habituado: pouca qualidade literária, cheia de mariquice, mas com uma vertente informativa muito elevada, que nos agarra desde o início.

Na minha opinião, o que ressalta em todo este primeiro volume, são as terríveis descrições das condições de vida de Auschwitz e das intenções dos nazis.

Obviamente que durante a sua leitura, nós sabemos dos fornos crematórios, da fome, de toda aquela miséria que levou à morte de milhões de pessoas. Porém, o que choca é a atitude dos nazis, sobretudo das SS, da ingenuidade dos judeus e da forma como são convencidos, mesmo diante de uma realidade atroz, que tudo aquilo era um mero campo de trabalhos e que, logo, logo, estaria tudo bem.

E, como referi anteriormente, as descrições são brutais. Recordo-me de uma cena, talvez a que mais me marcou, em que um soldado das SS constata que respira mortos, pois as cinzas no ar eram tantas, que se entranhavam no cabelo, na barba, nas roupas e eram respiradas.

As condições higiénicas são tão reais, que quase conseguimos sentir o fedor das fezes amontoadas em baldes ou no chão, o vómito que cobre o chão onde jazem cadáveres como se fizessem parte desse mesmo vómito.

A condição humana é liminarmente esquecida, reduzidas a um estado abaixo do animalesco, sempre com o beneplácito das tropas alemãs que tinham um objectivo bem estipulado e que obedecia a um plano esotérico. Sim, esotérico.

Algo que muita gente desconhece, mas os nazis acreditavam que descendiam dos atlantes. Isso está por detrás da ideologia do povo supremo, puro, a raça ariana. E, nessa vertente, o autor informa e informa bem.

É esse o principal factor da pretensão de extermínio das raças impuras. Eles acreditavam mesmo nisso e o plano era simples, eliminar os impuros para que a raça dos atlantes, os supremos, pudessem voltar a “reinar” no planeta.

Insano! Mas aconteceu!

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Homem de Giz (O) - C. J. Tudor

 

Nunca presumas. Questiona tudo. Procura sempre além do óbvio.

 

O Homem de Giz era, confesso, um livro que tinha imensa curiosidade ler desde a sua edição em Portugal. Não apenas devido ao seu argumento, como igualmente pelo facto de ter várias opiniões entusiastas que o consideravam “entusiasta”, “fabuloso”, “brilhante”, “impressionante”, entre outros, com Stephen King metido ao barulho, aconselhando a sua leitura.

 

E de facto, assumo, é um livro que me agarrou logo nas primeiras páginas, condição Sine qua non para que eu continue a leitura, pois e conforme já o tenho referido por diversas vezes, quando o livro não me agarra nas primeiras 50, 100 páginas, não tenho qualquer problema em desistir e partir para outro. No caso isso não sucedeu.

 

A autora soube usar o procedimento clássico das histórias policiais que é, no fim de cada capítulo, deixar o leitor em suspense com algum facto misterioso que faz com que , inevitavelmente, o leitor vira a página para matar a curiosidade. Básico, mas que funciona sempre e uma das principais táticas de qualquer escritor.

 

Assim, a história vai avançando a um ritmo muito interessante, sempre salpicado por novos acontecimentos que vão adensando o mistério, tornando-o numa intricada teia cujas pontas, aos poucos se começam a desenlaçar.

 

Ou seja, gostei do livro, penso que vale bem a sua leitura devido ao facto de nos entreter e de ser uma leitura ávida e rápida, sem nenhuns floreados ou descrições desnecessárias, porém e há sem um mas, porém, confesso que esperava muito mais, ou seja, as minhas expectativas estavam tão altas que, admito, senti-me algo decepcionado com o desenlace da história, sobretudo porque achei o argumento demasiado previsível.

 

Depois e apresentado todos os personagens, e há que referir que a história nos vai sendo narrada pelo mesmo personagem mas em momentos temporais diferentes (em criança e depois trinta anos mais tarde), sensivelmente a meio do livro começa-se a perceber as ligações entre todos eles (os personagens) e há acontecimentos que nos parecem estranhos, mas que fazem sentido se presumirmos (nunca presumas), porém a chave está precisamente no presumir, pois a minha pergunta inicial era do porquê de Eddie ter ficado tão obcecado pela rapariga do carrossel. E é precisamente essa a chave do livro.

 

Desde que percebi a ligação tornou-se perceptível que o Homem de Giz só poderia ser três, quatro pessoas, no entanto há um pequeno pormenor numa loja que me fez perceber que só aquele poderia ser o presumível criminoso ou aquele que andava a fazer bonecos de giz.

 

Não vou divagar mais sobre isso, mas confesso qu esperava mais do livro, sobretudo esperava mais suspense e um final mais apoteótico. O que tive foi um final dentro daquilo que percebi a dada altura e nem as últimas folhas me surpreenderam.

 

Ou seja, é um bom livro, de leitura fácil e ávida, mas fica aquém daquilo que pintaram. Sem a publicidade que lhe fizeram, é mais um thriller bem construido mas sem grande inovação.

 


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Releituras



No último livro de Miguel Sousa Tavares, às tantas, ele refere um episódio entre ele e a sua mãe, a poetiza, Sophia de Mello Breyner Andresen, quando ele a questiona do porquê de ela ler sempre os mesmos livros, ao que ele respondeu: “esses sei que são bons, porquê perder tempo a ler outros?”
 
Escrevo isso de memória, mas o que sobressai é o facto de, depois de se ler tão boas obras, é extremamente complicado pegar em livros de qualidade inferior e, sobretudo, perder tempo a ler algo que nada nos diz.
 
E vai daí, decidi não voltar a pedir livros à biblioteca (até porque muitos do que peço, não estão disponíveis) e muito menos comprar. Vou aguardar a reabertura da biblioteca, para poder analisar os livros antes de os reservar e, principalmente, constatar da sua disponibilidade.
 
Logo, vou seguir a filosofia da “nossa” Sophia e empreender a releitura de algumas das excelentes obras que tenho na minha biblioteca pessoal, pois e dessa forma, sei que não vou perder tempo, simultaneamente que irei reencontrar velhos amigos.